
As notícias e as conversas sobre a guerra estão por todo o lado e entram nas nossas casas, no nosso quotidiano, na vida das nossas crianças. Coloca-se então a difícil questão sobre o que dizer sobre a guerra. A guerra pode comprometer a forma como as crianças sentem e pensam, nomeadamente, sobre a sua própria segurança e sobre a qualidade do mundo em que vivemos. Se por um lado queremos que se sintam protegidas, por outro queremos despertar a sua consciência cívica e o seu pensamento crítico. Para que isso aconteça devemos estar abertos às suas dúvidas, explorar as suas preocupações e disponibilizarmo-nos para procurar respostas em conjunto. Porque não se resume a preto e branco, nem a um lado bom e a um lado mau... É uma boa oportunidade para falar sobre escolhas e consequências, obrigar-nos a flexibilizar as nossas ideias e preconceitos, a vermos diferentes perspetivas, a identificar as necessidades e os sentimentos de todos os envolvidos, a explorar o conceito de conflitos e as diferentes formas de os resolver e, ainda, a reforçar a importância do papel de cada um de nós na construção de um mundo melhor e no apoio às vitimas, de ambos lados.
Devemos proporcionar informação apropriada à idade e à capacidade de compreensão de cada criança e assegurar que se podem sentir seguras e protegidas. É importante enfatizar que todas as guerras acabam e que podem existir soluções não violentas para a paz.
Algumas dicas sobre como conversar sobre a guerra:
(Fonte: Ordem dos Psicólogos Portugueses)
- Permitir à criança expressar os seus pensamentos e sentimentos: Mostrarmo-nos disponíveis para os escutar e para falar sobre o assunto. Perguntar-lhe o que pensa sobre a guerra, se está assustada ou preocupada. Algumas crianças podem sentir-se mais confortáveis em desenhar, brincar ou contar histórias directa ou indirectamente relacionadas com o que está a acontecer.
- Escutar e descobrir o que a criança já sabe: Ouvir o que a criança espontaneamente comenta ou questiona. A melhor abordagem é deixar as preocupações das crianças guiar a direção e profundidade da conversa. Estarmos atentos ao que não dizem (expressões faciais, gestos ou tom de voz, também podem revelar emoções).
- Validar os sentimentos da criança: Não sentimos como grande ajuda quando alguém nos diz “Não te preocupes!”, acerca de algo que nos preocupa, por isso, devemos evitar dizê-lo às crianças e jovens. Não julgar a criança pela forma como se sente, mesmo que nos pareça fazer pouco sentido. Os seus sentimentos são naturais e compreensíveis.
- Adequar a linguagem e a informação à idade da criança: É importante sermos honestos e não minimizarmos a gravidade da guerra, contudo, não há necessidade de sobrecarregar a criança com informação desnecessária e que pode não conseguir processar.
- Assegurar as crianças e jovens de que estão protegidos e seguros: É importante repetir-lhes que estão protegidas e seguras e que a sua família também. É uma boa ideia reforçar o contacto físico e manter as rotinas habituais. Sublinhar que há esperança e muitas pessoas a tentar ajudar, evidenciar os atos de coragem, bondade e serviço aos outros para recordar às crianças a humanidade e amor entre as pessoas.
- Assistir às notícias em conjunto com as crianças mais velhas: No caso das crianças mais novas é importante restringir o acesso à informação veiculada na comunicação social, evitando a exposição direta a imagens e informação que as possa perturbar. No caso das crianças mais velhas, a abordagem mais adequada será ler ou assistir às notícias em conjunto, encorajando-as a dar a sua opinião e a colocar questões (não mais do que uma ou duas vezes por dia).
- Evitar estereótipos: Seja qual for a nossa opinião sobre a guerra ou os países envolvidos, devemos evitar imagens e linguagem que polarizem, colocando em oposição “os bons” e “os maus”. Esta pode ser uma oportunidade para promover a tolerância e a compaixão, o respeito por todos e pela diversidade. Ajudá-las a compreender que a guerra traz consequências para ambos os lados. Utilizar a conversa para encorajar a discussão de outros temas. Uma conversa sobre a guerra pode evoluir para uma conversa sobre outras questões difíceis de resolver na nossa vida.
- Monitorizar o stresse e a Saúde Psicológica das crianças: A guerra pode afetar mais umas crianças do que outras. É natural que se sintam confusas, perturbadas ou ansiosas. No entanto, alterações duradouras do comportamento e do sono, preocupação constante com o assunto e medo da morte, podem constituir sinais de alerta. (Experimente preencher o rastreio de saúde mental que é disponibilizado pela Pro Child.)
Por último, as crianças aprendem a lidar com a adversidade observando a forma como os adultos mais significativos o fazem. Não há nada de errado em mostrar que temos medo ou ansiedade, mas é muito importante estarmos consciente desta influência, evitando sobrecarregar as crianças com as nossas emoções e, antes, focarmo-nos em transmitir como estamos a lidar com esses sentimentos.
Nem mesmo os adultos têm todas as respostas, mas a partilha e o debate de ideias são ferramentas muito úteis para a compreensão e melhoria do nosso mundo, bem como das relações entre adultos e crianças.
Virgínia Alberta Martins
Psicóloga Clínica e da Educação, na Associação de Solidariedade Social dos Professores